terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Por que os homens devem assistir ao filme 50 Tons de Cinza




Essa mulher está louca, né? Posso ouvir os pensamentos daqui, de frente ao computador. O filme, que vem quebrando a internet com apenas alguns dias em cartaz, tem despertado reações variadas. Coisa que já vinha acontecendo antes mesmo da estreia. Assim como o livro. Ou melhor, os livros. A minha curiosidade veio de uma amiga, que leu o livro antes de ser lançado no Brasil. Juliana, você tem que ler. Ah, é, mas porquê? Porque eu adorei. E foi assim que entrei - de cabeça - no universo cinza do Sr. Christian. 

Mesmo não sendo uma especialista em literatura "sensual", gosto pra caramba de ler. E de tudo. Não tenho o menor preconceito literário. Mas prefiro livros à filmes, e não por intelectualismo barato, mas porque a imaginação sempre me seduziu. E não é que no final das contas você não consegue parar de ler? O enredo tem falhas em vários pontos e algumas situações não fazem o menor sentido na vida real. Mas isso são apenas detalhes para um livro que nunca prometeu nada mais que diversão.

A história da hoje milionária E.L. James, lançado em 2012, traz a história de Christian Trevelyan Grey, o multimilionário CEO e maníaco por controle e da quase ingênua Anastasia Steele. 50 Tons de Cinza ganhou o mundo - e dois livros sequência: Cinquenta Tons de Liberdade e Cinquenta Tons Mais Escuros. 

E foi por isso que, três anos depois de ler a Trilogia, voltei, há cerca de um mês antes da estreia do último dia 12, a ler o primeiro livro. Acompanhei atenta à escolha do ator e da atriz para os papéis principais. Me diverti com as especulações e, de cara, confesso que não gostei da atriz escolhida. Queria alguém como a Kristen Stewart, meio sem graça por definição. Mas me acostumei a Dakota Johnson. Mesmo sendo filha de gente famosa, os atores Melanie Griffith e Don Johnson, nunca havia ouvido falar dela antes. Acho que por isso deu certo. Ponto pra eles. Já Jamie Dornan para o papel de CTG foi, na minha opinião, a escolha perfeita, porque ele tem cara de Christian Grey. Além disso, pode ser visto como um serial killer em The Fall. Como não amar?

A parte curiosa é que, agora, depois de tanto tempo, reler o livro, mas com os personagens na cabeça, me fez enxergar outras coisas. E elas mudaram. Parando de imaginar com eles seriam, sobrou muito mais tempo para reavaliar o enredo e os rumos da história. A única coisa que não mudou é a graça de acompanhar como eles jogam com a sedução. E isso, Christian Grey sabe fazer muito bem. E não sou eu quem está dizendo, mas sim os milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

Mesmo com toda movimentação, apenas as mulheres assumem a vontade de assistir ao filme. Já vi muita mulher se inspirar com algumas passagens do livro e usar com seus "Christians Greys". O mesmo poderia acontecer com os homens, mas parece que tá meio difícil este encontro com o Sr. Cinza. A frase é: não li, não vou assistir e quero ver depois essas mulheres reclamando pelos seus direitos. Uma pena. Então eu insisto: se sua mulher, namorada, noiva, ficante ou qualquer outra coisa quiser assistir ao filme, vá com ela. Você pode não gostar de nada do que verá na tela, mas não poderá negar que passar duas horas no escurinho do cinema, de mãos dadas e em clima de romance com sua amada, será uma delícia. Quem sabe você sairá, no final da sessão, não devendo nada mesmo ao Sr. Christian Grey ;) 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Um dia de merda

Dezessete abas abertas no navegar. Eu contei, porque não cabia mais. E tudo sobre Eduardo Campos. Queria ler, queria saber, queria acreditar. Começou no almoço. Recebi a notícia de um amigo da redação, não acreditei. Mandei um whatsapp para amiga que trabalha na campanha dele. É verdade? É, Ju, tá confirmado, ele morreu. Tem gente que acha que pulei de alegria, porque jornalista é tudo assim mesmo. Errado. Fiquei perplexa. Morreram mais pessoas com Campos, mas como não chocar primeiro com a morte dele? O cara é candidato, um presidenciável, impossível separar um político de um ser imortal.

A redação só tinha caras de desespero e surpresa. Todo mundo se perguntando se era mesmo verdade. E notas subindo. Confirma informação daqui, quer ajuda? dalí. Nessa hora, entretenimento se mistura com hardnews, porque o que você quer é ajudar. Quer que dê certo, quer descobrir, dar a informação. Jornalista que não sente isso, desculpa, não é jornalista.

As horas passam, as notícias se multiplicam, e você ali, vendo tudo. Não dá pra desligar. As redes sociais explodem, gente dando opinião. Um que lamenta, o outro faz piada. Chega a dar raiva, porque você não consegue se separar do papel de profissional, mas tem coisa que mexe com as entranhas. Piadas de mau gosto, brincadeiras sem graça, gente querendo falar só por falar. Triste. Uma vida, duas vidas, sete! Outro telefonema da amiga, emocionada agora, sentindo a dor de ver um cara pra quem ela trabalha morrer. 

O dia é um caos. Excesso de informação, especulação e, claro, gente metendo o pau na imprensa. Pra que saber quem vai assumir o lugar dele? Como se diz por aí, a vida continua. Se Campos morreu e era o terceiro colocado numa campanha presidencial, é claro e natural que seja esclarecido o que vem depois. Se Marina será ou não candidata, ainda há tempo, mas cada um de nós, brasileiros, tem a obrigação e o dever de saber. 

Fim do dia. Uma cerveja, por favor? Roda de amigos e cabeça no lugar. Essa é a hora que qualquer jornalista sente e avalia com o lado pessoal o que se passou. Um dia triste. A morte trágica de profissionais que estavam fazendo o seu trabalho, a morte de um pai de cinco filhos e que enterrou uma vida pública promissora. 

Era político? Sim, político. Era corrupto? Não sei. O que eu sei é que estou chocada com a morte dele como fiquei com as vítimas do avião da TAM. Como fiquei chocada com a morte dos Mamonas Assassinas. Porque jornalista também se choca. Jornalista sente dor, pena, raiva, indignação, e qualquer outra coisa característica do ser humano. O que tenho pena, pena mesmo, é de ver tanta gente escolhendo outros governantes para estarem no avião que caiu, no lugar de Campos, ou apontar nomes para o responsável pela tragédia. Me entristece ver as mesmas pessoas  criticando a postura da imprensa, acusando de se aproveitar da situação e, ao mesmo tempo, desejando que Aécio ou Dilma estivessem no avião. 

Vi amigos jornalistas dando depoimentos no Facebook narrando o dia de hoje. E digo a vocês, ninguém gostou do que viu. Noticiar tragédias se faz necessário. O que é desnecessário é ver gente desejando a morte de outras pessoas como se tivesse anunciando a venda do carro. Este, infelizmente, é o país que vivemos. Se você deseja que os seus representantes morram, só consigo lembrar da frase: cada povo tem o governante que merece.

Aos amigos jornalistas que só puderam pesar a tragédia quando bateram o cartão e se viram fora do trabalho, parabéns pela eficiência de separar a perplexidade pessoal da determinação profissional. São momentos como estes, de ouvir a voz embargada de uma amiga jornalista me dando a confirmação da morte de Campos, que cada um escolhe a forma como quer sobreviver na sua profissão. E hoje, mesmo sendo um dia de merda, eu tive certeza que fiz a escolha certa. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Encoxada é bom



Enconxadores. Este é o novo termo que tenho ouvido na última semana pra definir os caras que assediam mulheres no metrô. Opinião sobre este assunto eu tenho há muito tempo, porque sempre usei este tipo de transporte. Mas por incrível que pareça, tenho visto mulheres fazendo piada sobre o assunto. Homens dizendo que também são vítimas das "encoxadas" (rindo, claro). E último, mas não menos importante, gente dizendo que as mulheres andam com roupas pouco adequadas para estes meios transporte.

Encoxada pra mim é sinônimo de coisa boa. Já ouvi gente dizendo que foi encoxada no carnaval e a-d-o-r-o-u. Gente que encoxou a namorada na cozinha depois do jantar. E mulher que adora receber uma "encoxada" do namorado.

Por isso, o que acontece todos os dias dentro dos ônibus, trens e lotações não se chama "encoxada". É tentativa de estupro. E com a gravidade da situação, o assunto não deveria ser discutido com enquetes na internet, com achismos no Twitter ou de gente em qualquer outra rede social. Isso é caso de polícia.

Essa banalização das coisas tem queimado os neurônios das pessoas? Pela ânsia de ter que opinar sobre nada ou todo assunto, acabam falando o que bem entendem.

Já ouvi um cara indignado porque um homem chegou às vias de fato com uma das mulheres no metrô. As vias de fato que digo aqui é que o homem chegou ao final da masturbação, inclusive, sujando a vítima. Pois é, meu caro. Isso existe e, infelizmente, não é novidade.

Isso acontece há anos no Brasil. Há anos quem usa transporte público sabe que o que existe lá dentro é coisa que fere o direito de qualquer cidadão. Mas quem usa estes meios de transportes não consegue chamar a atenção para o problema de superlotação. A histeria agora aconteceu porque o caso caiu nos meios de comunicação. Temos gente surpresa com notícia velha.

Um caso idêntico ao que citei acima, da "masturbação completa", aconteceu com uma amiga há exatos dez anos. Há uma década os trens já eram lotados e já carregavam este mesmo tipo de gente. Só queria explicar a essas mulheres que "dão risadinhas" com o termo "encoxadores" e esses homens que também estão reivindicando o seu direito de não ser encoxado, que o buraco é "mais embaixo".

Mais do que sujar a roupa, ou no caso, a calça da minha amiga (sim, calça, porque ela não é dessas que usam roupas provocantes no metrô, ok?) uma situação dessas acaba com a dignidade da mulher. Além da roupa suja lembrando do assédio o tempo todo, ela sofreu um abuso, foi usada por alguém sem consentimento.

Em meio ao choro desesperado dela, copos de água com açúcar, garanto que foi quase impossível tentar acalmá-la. O que eu tentei naquele momento foi dividir aquela humilhação para que ela conseguisse entender que a vítima era ela e que tudo acabaria bem. Mas eu falhei. Porque é impossível sentir uma humilhação que não viveu. E falhei porque depois disso não se fica bem. Não tem como ficar bem. E sabe por que não?

Porque este episódio nunca será esquecido. Pelo menos por ela. Ou por mim. E o cara? Bem, o cara foi satisfeito para onde quer que seja. Para o trabalho, casa ou atrás da próxima "encoxada". O fato é que nem eu, nem você e nem minha amiga jamais saberemos que fim levou, porque situações como essas não são tratadas com a seriedade que merecem. A discussão vem com achismos, risinhos idiotas ou, de uma forma mais "responsável", com indignação. Mas geralmente só é feita por quem passa todos os dias bem longe de um vagão lotado.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

"Um Dia" para ser esquecido



Eu adoro ver indicação de livros. Na internet, dos amigos, de alguém que já leu. Quando as pessoas falam, aquela empolgação é tão verdadeira que eu não aguento e tenho que saber como é. É quase inveja. Depois da capa de um livro, um texto sobre ele é o que mais me faz comprá-lo. Compro livro por qualquer motivo. Menos quando todo mundo está lendo. Acaba sendo tão superestimado que geralmente me decepciona. 

Mas lembra de Um Dia? Vi uma resenha de um cara, um colunista que eu leio faz tempo e que gosto muito dos textos e do bom (senso) gosto, dizendo que o livro era muito bom. Acabei me interessando. Mas meu pé foi para trás na hora. Como assim excelente? Não tem como um livro com aquela proposta ser excelente. Pelo menos, não pra ele. Na hora baixei o livro e fui louca pra casa ler. O que tem aí dentro que o pegou de jeito?

Foram exatamente dois dias e 408 páginas de ansiedade. Fiquei esperando o livro ficar bom, mas não ficava. Ele era tão denso em detalhes que ficava enjoativo. Parecia querer compensar o que eu já previa. A falta do arremate final, sabe? Aquilo que você não imagina que alguém possa imaginar. Algumas partes do livro se perderam e até agora não consegui encontrar o desfecho. Desconfio que foi o meu desinteresse. 

Faltando 47 páginas para o final, parei. Cansei. Virar cada página pesava. Insisti. Até que o que eu pensei ser óbvio demais pra qualquer livro sem história, aconteceu. A protagonista morreu. A mocinha lutadora, sofredora e inteligente morre. Coragem matá-la assim. Argumento que só pode ser usado num roteiro muito sensacional. O que não foi o caso. O autor precisava desviar o olhar da história desencontrada. E o que poderia dar mais certo do que a tristeza? A morte comove e perdoa qualquer erro. É a redenção. 

Mas não foi pra mim. Ainda não entendi como um livro tão falado pode ter uma história tão sem graça, como um romance pode ter tão pouca emoção. Se você leu a trilogia 50 Tons de Cinza, não precisa ler Um Dia. Porque no quesito joguinhos amorosos, o casal Grey se saiu bem melhor.  




terça-feira, 7 de maio de 2013

The show must go on

Meu primeiro show fora do Brasil. Bon Jovi vem me fazendo companhia nas vitrolas, rádios e iPods da vida há mais de 20 anos. Era doidinha pra saber como seria um show deles em outras terras. Pouco tempo antes da data, Richie Sambora deixa a tour - e os meus nervos à flor da pele. Será que pode ser cancelado? Como assistir Bon Jovi sem Richie Sambora?

Staples Center, sexta-feira, 19 de abril, saio do hotel e vou para lá com quase três horas de antecedência achando que estaria lotado de fãs. Porta tranquila, mas que começou a mudar nas próximas horas com um aglomerado de senhoras maquiadas, com saltos altíssimos, camisetas da banda e muito brilho e paetê. Talvez essa seja a maior diferença entre esta e as outras apresentações que tive a oportunidade de ver.

Procurando meu lugar, ainda tinha a esperança que Richie aparecesse. Especulações vinham de todos os lados. Por que não acreditar? Mas ele não apareceu. Como Phil X se comportaria no palco? Ouvi dizer que ele tem um ego bem grande. Será que Jon estaria diferente? Fiquei imaginando como seria Wanted Dead or Alive sem aquele chapéu de cowboy.

Começo de show, muita música nova, What About Now bombando em vendas, e mesmo com todo o engajamento, bem mais empolgante ao vivo do que em estúdio. Agradecimentos pra lá, FBI e Boston pra cá - e Jon mais solto do que nunca no palco. Phil X também. Som perfeito e muita coisa velha. Raise Your Hands me pegou de jeito. Passei dois dias cantando "from New York to Chicago"!

A banda intercalou músicas de todos os álbuns, coisa pra brilhar os olhinhos de qualquer fã. Até que Keep The Faith começa, junto com a minha certeza que não seria a mesma coisa sem Richie. E não foi mesmo. O novo guitarrista não fez feio, mas terminou sem Jon, que deixou o palco no final. Já vi tudo, pensei. Jon não vai segurar a onda até o fim e, em determinadas músicas, vai ser clara a ausência de Richie.

Mas foi a única parte que algo me pareceu estranho. Jon voltou ainda mais empolgado, dançando como nunca, e cantando duas covers, Bruce Springsteen e Rolling Stones, que fez o coro ser ouvido nas redondezas do ginásio.

Agora era esperar pelas próximas. I'll Be There for You me emocionou, com uma multidão repetindo todos os gritos pedidos por Jon que, com 51 anos, entrava e saía do palco dizendo que se estávamos cansados, ele não, e que tocaria "mais algumas". E vem Dry County, uma das minhas canções favoritas, me surpreendendo e confirmando por que decidi escolher a California e não qualquer outro lugar do mundo para as minhas férias.

Foram tantos "bis" que fiquei me perguntando de onde a banda tira aquela energia toda depois de anos de estrada. Nem imagino quantas pessoas estavam ali, mas o fato é que a banda é uma empresa perfeita. Há quem diga que as letras são melosas e não acrescentam nada a ninguém. Coisa que eles jamais prometeram. Sempre disseram que apenas dariam duas horas de diversão ao público. E nesta noite, em Los Angeles, eles deram mais que isso. Foram mais de três horas de profissionalismo, reboladas, solos e sintonia, além da certeza do por que se tornaram uma das principais bandas do mundo.

Se Jon Bon Jovi é proprietário da banda, seus funcionários continuam seguindo o seu exemplo e trabalhando muito bem. Bem ao estilo "o show tem que continuar". Phil X não era exatamente quem eu queria ver, mas se saiu muito bem. Mesmo desconhecendo ao certo os motivos que fizeram Richie Sambora se afastar, entrei no show achando que ele faria falta, mas ao final do show, quando as luzes acenderam, tive absoluta certeza de que ele é quem deve ter sentido muito por não estar ali.




segunda-feira, 30 de abril de 2012

Não basta educação, tem que ter prioridade

Dias atrás, vi uma reportagem não me lembro onde, sobre crianças que viviam nas ruas nos Estados Unidos. Quando vi a chamada para a matéria, me interessei em ver como vivem crianças na rua em outro país. Na hora, lembrei das crianças aqui no Brasil, que decoram a cidade com o que ela tem de pior, a pobreza, a falta de esperança e o retrato do abandono.

Para minha surpresa, as crianças viviam em trailers com seus pais, ou em abrigos. Tinham acesso a quase tudo, como comida, higiene e, principalmente, educação. Mesmo morando na rua, elas tinham sonhos, planos e o mais importante, dignidade.

Não que isso seja suficiente, não é este o ponto, mas o que me surpreendeu, foi a luta dos pais para não tirar dessas crianças o direito de estudar. No caso da garotinha que morava com a família num trailer, o pai a pegava na escola, levava em um restaurante para comer e depois a levava para uma biblioteca para que pudesse estudar, fazer o dever de casa e usar a internet. Rotina de todos os dias.

Essa é a diferença. Prioridades. O pai se importava com os filhos, com a falta das necessidades básicas que uma casa pode proporcionar, mas o que ele realmente não deixava de fazer, era acompanhar a filha  ao lugar que lhe trará o direito de conquistar sozinha o mundo, de pensar, de escolher o caminho a seguir.

Essa reportagem acabou clareando exatamente o que está estampado todos os dias em nossa cara. Mas eu não quero ver. O brasileiro não quer estudar. Ele não aprendeu desde cedo a importância disso, porque simplesmente o nosso país não tem a cultura da educação. Porque não faz sentido hoje um povo inteligente, instruído ou que consiga buscar e encontrar o próprio caminho a seguir.

Num país com essa falta de vontade, não pode mesmo crescer, não pode nunca curar o poder da corrupção, de brigar pelos direitos, de reclamar da roubalheira do Judiciário. Como exigir educação de um povo que prefere se divertir com tanta bobagem a realmente descobrir coisas úteis? Como acreditar num país onde programas de TV imbecis são referências para a sua forma de agir?

Artistas péssimos, sem carisma ou talento é que estão na crista da onda e ofendem a inteligência das pessoas como se isso fosse regra. E viramos soldadinhos deles, marchando de acordo com o rumo que querem que a gente siga. Em qualquer área.

Não estou falando em uma vida sem diversão, mas sim em uma diversão com hora marcada. Vale se divertir, vale ver porcaria e vale entender o que acontece ao redor. Só não vale aceitar que a imbecilidade ou a falta de talento determine o curso de sua vida.

Não deve ser tão difícil educar os filhos ou dar exemplos onde a escola e os livros são lugares seguros onde, sem desculpa, você tem a opção de ser aquilo que deseja ser. Que seja satisfatório ou não, mas que a escolha seja sua. Aguentar as consequências de suas escolhas, daí, já renderia uma nova história.






quarta-feira, 25 de abril de 2012

Revirando arquivos

Achei uma entrevista que fiz há quatro anos com Danilo Gentili. Engraçado como em tão pouco tempo as coisas mudam.

A impressão que eu tenho é que somente ele não mudou. Um menino muito educado, gentil e que me recebeu muito bem, sem frescuras ou papas na língua.

Apaixonado por quadrinhos, contou que estava na expectativa de conseguir uma editora que publicasse o primeiro livro dele.

A íntegra ficou guardada no meu gravador, já que a pauta era somente tecnologia. Mas me lembro bem que o mais interessante da conversa não tinha nada a ver com a vida virtual dele.

Veja como não mudou o discurso, apenas o alcance dele.

Humor 100% conectado

Juliana Zorzato

Ele fica online 24 horas por dia. Ou quase isso. Ultimamente, esteve envolvido em polêmicas com o alto escalão de Brasília. Danilo Gentili vem desafiando alguns políticos e fazendo muito segurança exercitar a paciência. Tudo isso na TV, através do programa CQC, da Rede Bandeirantes. Fora das telas, pelo Orkut, blog, MSN e vídeos no YouTube, ele vê sua carreira de comediante alavancar e ganhar cada dia mais admiradores. Por meio do twitter, mantém o humor com mais de 100 mil seguidores.

Conheça um pouco da antiga relação desse andreense de 29 anos com a tecnologia e como vem administrando sua relação com os fãs depois que a exposição toda na internet mudou sua rotina de solitário internauta à protagonista de brigas de fãs em seu perfil do Orkut.

PC Magazine - O brasileiro tem senso de humor?

Danilo Gentili - O brasileiro tem autoestima baixa. Se mexer com político eles ficam putos. Nos Estados Unidos, eles têm humoristas para falar só dos políticos. Aqui se leva tudo muito a sério. Se você fizer piada tem um monte de segurança em cima de você.

O stand-up comedy mudou a cara do humor no Brasil?

Na TV não mudou muita coisa, a Zorra Total continua tendo audiência. Mas fora isso acho que mudou um pouco sim. O público de stand-up é diferente. É gente nova, da internet.

Como funciona o processo de criação dos textos?

Eu vejo uns assuntos que eu quero muito falar e faço o texto. Pra fazer uma coisa boa leva um tempo.

Para quanto tempo de show?

Sozinho uma hora, se for junto, de dez a 15 minutos.

Depois de toda a exposição na TV e no YouTube, a validade dos textos diminuiu?

Não muito, o público não é o mesmo. Ele muda, vai revezando.

E o número de shows aumentou. A grana aumentou também?

A negociação é sempre a mesma, o que aumentou foi o número de shows.

Está mais fácil escrever os textos, tira de letra?

Estou cada dia mais preocupado com a qualidade. Sei que as pessoas esperam coisas boas e sempre busco fazer o melhor.

Se acontece algo no dia, dá pra improvisar?

Ah, aí, eu escrevo no blog.

Os posts estão ficando cada vez mais escassos? Tá faltando tempo?

Eu não faço que nem muita gente por aí, que posta qualquer coisa. Não vou ficar escrevendo coisas que não são interessantes. Eu espero acontecer algo legal para aí sim escrever. No meu blog antigo era mais despreocupado, porque não tinha tanta gente lendo. Hoje mudou.

Como se mantém informado, nas pautas do programa e para seus textos no blog?

Me informo pela internet. Dou um Google, busco as informações do que quero.

E na vida pessoal? A invasão de privacidade com Orkut, blog, MSN... A ligação direta com os fãs te deixam preso a eles? Você é cobrado pela rede?

Sim. O pior é que as pessoas que gostam do meu trabalho são as que mais me cobram. Mas se querem que eu continue trabalhando, precisam me deixar trabalhar.

Houve até briga no seu perfil do Orkut entre fãs, não?

Umas meninas começaram a se xingar e entraram outras no meio. Eu até parei de olhar. Daí fiz um comentário lá e outras garotas disseram que sou grosso. Mas no Orkut você se expõe, se estou lá, não posso reclamar.

Então não vai ter outro perfil no Orkut?

Não, de jeito nenhum. Eu só não apago esse porque já tenho há muito tempo. Nos e-mails a mesma coisa. Tem gente que reclama porque eu não respondo e-mail. Mas se eu ficar respondendo e-mail eu não faço mais nada.

O que mudou na rotina de shows desde o início até agora, com CQC e internet?

Eu já viajava antes do CQC. E sempre com casa cheia. O problema agora é que às vezes eu tenho gravação no dia de um show marcado há dois meses. E tenho que cancelar.

Um ponto positivo e negativo da rede.

O ponto positivo é que você aparece. O ponto negativo é que você aparece.

Você é refém da internet? Quanto tempo consegue ficar sem?

Ah, não fico sem. Eu me viro, vou na lan house, levo notebook.

Fora da internet, o que gosta de fazer?

Gosto de comer (risos). De comer e de conversar com meus amigos.

Stand-up ou CQC?

Acho que ainda tenho coisas para fazer no CQC.

Qual a maior piada do Brasil?

O brasileiro.

Fonte: PC Magazine





segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A vida é agora

Você não precisa entender linguagem de sinais, não precisa rever um grande amor. Nem precisa reacender alguma paixão. Entender o que se passa na cabeça das pessoas pode se tornar uma obsessão.

Medir atitudes dos outros pode se tornar cansativo e modificar o que fez no passado, sendo certo ou errado, também não me parece saudável. O ontem não deve servir de apoio para o hoje. Viver agora deve ser bem mais interessante. 



Perdemos muito tempo tentando entender o que passou, tentando modificar quem somos para entrar nos moldes de quem quer que seja. Viver de acordo com o que os outros querem pode ser muito dolorido. É egoísmo. Gestos e atitudes precisam ser originais. O forçado não seduz tanto assim.


Ser novidade pode ser surpreendente. Já parar no tempo me parece burrice. Se tudo faz sentido e parece a melhor atitude a ser tomada, por que é tão difícil fazer? Já procurei uma maneira de seguir este pensamento, mas sempre me pego voltando ao passado. Tentando agir de maneira semelhante a outros tempos. A sensação é de conforto. Talvez o nome correto seja comodismo.


Não quero mais viver no comodismo, mas preciso descobrir a fórmula para subir o degrau. Livro de autoajuda, benzedeira, macumba ou apenas tirar o cabresto. Se alguém aí souber a fórmula do sucesso, me conta. Juro que dou o crédito no final. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

No país das incertezas, quem acredita vira mito

Nunca fui muito ligada na Fórmula 1. Sou apenas fã do ser humano. Também não acredito muito em mitos ou ídolos a serem seguidos, mas bons exemplos são sempre bem-vindos.

E essa sempre foi a categoria que encaixei Ayrton Senna. Um ídolo do Brasil reconhecido no mundo inteiro. Um exemplo de determinação, coerência e fé.

Mesmo não gostando muito de insistir em acontecimentos ruins, não resisti e caí na tentação de assistir ao documentário Senna, de Ayrton Senna, mesmo sabendo que, a duas horas da chegada de 2012, choraria bastante. E chorei o choro premeditado.

Uma tristeza tão intensa que dá vontade de voltar no tempo ou ir para o futuro para saber se somos realmente donos de nosso próprio caminho. Mesmo com o coração apertado, dá pra entender porque aquele homem foi - e sempre será, não sei se o mais importante, mas o mais intenso mito que o Brasil já teve.

Ser o melhor na competição não bastava pra ele. Ele tinha que ser o melhor no resto. De corpo e alma. Ele era capaz de entender como as coisas funcionavam e não aceitar. Ir contra. Desrespeitar.

Porque a paixão pelas corridas era maior do que qualquer regra, do que qualquer outro interesse, mas não era maior que sua fé. Pode ter tido uma vida curta, mas intensa o bastante pra deixar o mundo inteiro parado para acompanhar a sua tragédia.

O mais surpreendente é saber que Senna era brasileiro, o mesmo país de craques do futebol, da música e de ídolos passageiros, mas foi ele, mesmo num esporte de elite, vindo de uma família rica, que cravou no coração da maioria dos brasileiros o sentimento de coragem, fé e determinação que todo homem deve ter.

Se mitos existem, Ayrton Senna, pra mim, é o que chega mais perto disso. Queria ver mais brasileirinhos acreditando em si mesmo e levantando a taça mais do que rebolando ou descolorindo o moicaninho.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A Estamira das Estamiras se foi


Semana passada uma amiga colocou no Facebook a seguinte mensagem: Estamira morreu. Fiquei chocada na hora, mas não conseguia me lembrar exatamente o porquê. Pelo filme, claro, mas não conseguia me lembrar do enredo dele, apenas que tinha me emocionado.

Ele, junto com uns três outros documentários, foram essenciais para que concluíssemos o nosso. Dei um Google na expectativa de confirmar a informação e ainda me espantei com a causa da morte: falta de atendimento médico. Fiquei surpresa pela minha surpresa. Soube também a data exata da morte, na quinta-feira desta mesma semana. Como é que ninguém noticiou? Ou foi falha minha não ter encontrado?

Tive uma leve sensação de alívio pela mídia não ter dado destaque à morte dela. Não pela relevância, já que a coisa mais difícil de se encontrar é alguém que tenha assistido. Mas alívio por não ter ficado entupida de notícias repetidas, várias interpretações e achismos da parte de quem pega carona no assunto.

Com tudo isso, tentei relembrar do filme e não consegui, mas neste momento, estou na frente da TV, assistindo mais uma vez depois de três anos. Ela é a personagem mais sã do que podemos chamar de realidade. Seus devaneios são completamente compreensíveis e tocantes em todos os sentidos.

Você perdoa os palavrões, você perdoa as ofensas à família, a discussão com o neto, você perdoa tudo, porque não existe meios de entender ou ordenar a dor que reflete o rosto dessa mulher. Não só a dor, mas o amor da filha, que mesmo sendo poupada daquela vida pela escolha do irmão, daria tudo para ter vivido ao lado da mãe. Um depoimento honesto, confuso, que não consegue decidir, e nem esclarecer, se foi melhor viver longe ou perto dela.

Um amor incompreendido, se relatado por outros, mas tocante para qualquer pessoa que tenha ouvido da boca dela. Depois de estupros, hospitais, manicômio, e tanta raiva de Deus, a aparente calmaria do seu lar, o lixão. Ela conseguiu se encontrar. Mas não no mundo, mas em si mesma, no seu mundo.

Louca, possuída, ignorante? Não creio. Prefiro acreditar na lucidez de uma sofredora. O mais lúcida possível quanto alguém possa ser com a sorte que a vida lhe reservou. Na sua revolta contra Deus, só penso em como manter a fé quando parece que até mesmo Deus lhe virou as costas.

Um documentário impressionante. A percepção irracional dela beira ao equilíbrio. Que força é essa que a faz seguir em frente, acordar todos os dias? Já apanhou até de pau para acreditar em Deus, mas continuou fugindo. De Deus. Aquele Deus, como ela mesma diz, criado pelo homem.

Eu comecei a assistir novamente, mas agora, pela metade. Não li nada, não quis relembrar. Apenas tentar entender um pouco mais desse roteiro louco que me fez repensar a vida por um bom tempo. E hoje sinto um pouco mais a sua morte, porque, infelizmente, ela não conseguiu aguentar. Ela não conseguiu provar que os médicos estavam errados mais uma vez, querendo apenas dopá-la.

Dessa vez, numa quinta feira, 28 de julho, não deu tempo da catadora de lixo se encontrar com nenhum deles, e mais uma vez, um ser humano morreu por falta de atendimento médico. Uma, em meio a tantas Estamiras que morrem todos os dias neste nosso país.

Agora, finalmente, ela deve acertar as contas com Deus. Ou se deliciar com o diabo. Seja lá como ou com quem for este encontro, não tem como negar que Estamira foi única. Ela, sim, foi genial.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Amy morreu

A primeira vez que ouvi Amy Winehouse foi há uns anos, quando uma amiga DJ colocou numa balada para os amigos. Acho improvável que alguém não seja tocado por ela. Que seja pelo "gostei" ou "não gostei", mas um vozeirão daquele não pode passar batido.

Quando a vi ao vivo não parecia, nas poucas músicas que cantou, aquela Amy de estúdio. Corpinho já magro, frágil e que não conseguia segurar a onda que o sucesso trouxe de brinde pra sua vida. Ela conseguia como poucos potencializar a melancolia.

E foi toda aquela verdade das suas letras que me encantaram. Ela sabia escrever o que sentia com simplicidade. Somado àquela voz e a batida, tornava-se irresistível.

Mas previsível? Eu apostava o contrário. Ela não parecia nada previsível. Acreditava que ela fosse se recuperar, dar a volta por cima, porque ia fundo no que fazia. Ela não teve tempo. E não conseguiu esperar.

Amy era exatamente o que ela cantava. Se viciou nas piores drogas, que, por mais surreal que pareça, a ajudaram a escrever sua história, suas letras e a sua vida. E pagou um preço bem alto por isso.

Aquele caos aparente a levaram para a companhia de quem todos nós mais tememos: a solidão. E se foi exatamente assim, sozinha. Um triste fim, que ela não conseguiu evitar talvez porque tenha feito uma escolha errada. Mas diz aí, quem sempre acerta o caminho?

Allan Sieber resumiu tudo bem aqui:

CHEERS, AMY 


Ela era demais.


terça-feira, 19 de julho de 2011

Fazer o bem só faz bem a nós mesmos

Fazer o bem a todos sempre foi uma boa premissa. E não por esperar algo em troca, mas pela sensação prazerosa que a ação proporciona. Porque amor não se cobra, não se implora, não se mede. Continuo pensando assim.

Mas gosto de acreditar em outras coisas também, principalmente quando os fatos são capazes de provar. E a frase que me vem à cabeça é: "muita gente estraga a vida com um doentio e exagerado altruísmo".

Não tem como contestar alguém que consegue desbancar as leis da moral e depois declarar todo o seu amor e perdão a quem mais o prejudicou, passando por cima do seu orgulho ferino, abrindo a sua vida numa carta de amor escrita dentro de uma prisão.

Como duvidar de quem levou essa máxima às últimas consequências? Não sou capaz. Não de entender, mas de fazer algo parecido. E são essas contradições que me fazem comparar o que se espera de melhor e de pior no ser humano.

Tenho eu o direito de querer mudar as pessoas? Acho que não. E mesmo querendo, não posso pedir algo parecido. Poderia escrever um desabafo desaforado, cheio de mágoas e até mesmo com boas desculpas para maltratar essas pessoas, mas se penso mesmo que não se cobra qualquer tipo de sentimento, como fazer isso?

Há muito tempo tive que me acostumar a deixar de entender qual a melhor forma de superar as coisas. Mas nunca deixei de acreditar que a forma que escolhemos é sempre a que nos faz amenizar a dor.

Por isso, acredito mesmo que somos todos grandes egoístas e insensíveis, capazes de deixar de sentir toda a dor necessária para a cura, para pegar o atalho da sensação boa de não sentir nada.

Entendo mais a cada dia que o altruísmo exagerado pode levar à fuga, fuga dos nossos próprios sentimentos, mesmo que isso custe o prazer de sentir o amor. Aquele amor sublime, incapaz de esperar algo em troca.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desistir pode ser surpreendente

Eu nunca desisti de nada. Quer dizer, nunca fica forte demais. Vou acrescentar um "conscientemente" aqui. Bem melhor.

Sempre quis lutar pelas coisas que eu acreditava ser o melhor pra mim, ou que me desse algum prazer. Mas quando essa coisa se torna difícil de administrar, o desistir passa a ter um significado gostoso.

Quando a sensação de impotência fica maior que a da conquista, a melhor coisa é tirar o time de campo.

Nunca imaginei que iria gostar de me sentir assim, mas a sensação de alívio é reconfortante.

Então, a partir de agora só quero o que me dê trabalho, mas o prazer também.

Querer não é poder

Nem tudo é questão de manter a liberdade, mas sim, de não ter opção.

domingo, 12 de junho de 2011

De volta às origens

Ontem eu tive a sensação gostosa de voltar às minhas origens. De me reconhecer um pouco mais. Com os acontecimentos do dia a dia fica difícil de saber quem você é, mais ainda o que você quer. Ontem eu me lembrei daquilo que nunca quis esquecer.

Tive o prazer de ir ao lançamento do livro do meu ex-professor da faculdade, Marco Moretti, um cara que me ensinou muito - e já me intrigou muito, como é comum em qualquer relação aluno/professor.

Ele sempre me inspirou pelas aulas e pela forma como faz jornalismo. O mais gostoso foi ainda encontrar  vários outros professores que ajudaram a formar minha opinião sobre  o que quero que essa profissão traga pra mim.

Na faculdade tudo é mais fácil, porque lá podemos ser o profissional que quisermos, defender as ideias que simplesmente acreditamos. Pena que não aproveitei mais, já que na vida profissional cotidiana, as coisas não funcionam exatamente  assim.

Ontem eu voltei a ser aquela pessoa que eu sempre gostei de ser, com minhas opiniões e vontades respeitadas. Rever professores que te reconhecem da mesma forma que antes é delicioso.

E é por isso que sempre defenderei as pessoas que acreditam em mim. Por mais que estejam longe, ainda fazem um bem danado.

Mesmo sabendo que a vida hoje não é tão encantada como na faculdade, rever pessoas queridas nos fazem ver quem realmente somos. Eles me fizeram acreditar que não mudei tanto assim, apenas ando meio sem tempo de me enxergar.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Feche o livro e vá pro bar

Uma vez li ou ouvi que quem tem um livro nunca está sozinho. Não vou mentir que já acreditei muito nisso. Aliás, livro virou meio que um vício. Mas viver o mundo real também é necessário. E pode ser bem divertido.

Tanto que ontem, terça-feira, saí para vender alguns repetidos num sebo. Na verdade, confesso que o real motivo disso era encontrar uma amiga. Mas conseguir uns troquinhos não seria nada mal.

Depois do trabalho fomos almoçar num restaurante que costumávamos ir. O resultado disso, ou melhor, a conta disso a gente pula. Mas a conversa com gostinho árabe não tem preço.

Vila Madalena e a procura por um sebo. Ligo para o amigo Henrique, responsável por 75% da minha paixão pela leitura.

- Alô?

- Alô. Oi Ju, tudo bem?

- Sim, querido. Jogo rápido: estou na Vila Madalena e quero um lugar adequado para vender uns livrinhos.

Ele, de pronto: - Fradique Coutinho, a primeira ou segunda loja.

Digita no GPS daqui, xinga a tecnologia dali, e decidimos não ir mais. Vamos pro bar. Mudamos de ideia de novo e achamos a livraria mais rápido do que o tempo de estacionar e tirar os livros do porta-malas.

Na entrada da loja, um japonês todo sem jeito fala: humm, aqui já tem tanto livro. De qualquer forma, vamos ver o que tem aí.

Enquanto ele olhava o que tinha nas sacolas, tivemos tempo suficiente para achar vários livros da Agatha Christie. Além deles, peguei um exemplar de Nu e Cru, do Paulo Francis, igualzinho ao que ganhei de um querido amigo.

Conta do dia: menos livros vendidos e mais livros comprados pra casa. Algumas preciosidades imperdíveis e saímos com as sacolas mais cheias do que chegamos.

Dali para o nosso destino final foi um pulo. Chopinho gelado às quatro e meia da tarde é pra fazer inveja a qualquer um. Gente chegando, nostalgia, novidades e projetos inviáveis no ar.

Amigos que conviveram tanto com a gente que metade do tempo passamos tentando explicar o por quê da distância. Teve brinde até por estarmos ali.

O que me faz pensar que por mais divertido e mágico que seja ler uma história e se encantar com ela, quero ter a certeza de viver minha própria história.

Aquela real, que não está nas páginas de nenhum livro, mas que me deixa com vontade de fazer tudo de novo, mesmo que nem tanta gente assim vá compartilhar, apenas alguns personagens reais, mas perfeitos, nesta narrativa tão mágica que é a nossa vida.

Um brinde aos amigos. A todos os amigos.

Ah, o livro repetido do Paulo Francis? É para um amigo da categoria "que estão longe"

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pedro Juan Gutiérrez - Nada como ter percepção de si mesmo

A primeira vez que li Trilogia Suja de Havana foi também a primeira vez que li Gutiérrez. Não dá pra parar. É uma leitura tranquila, gostosa, que você já começa a pensar no próximo que vai ler.

Agora nunca pensei que pudesse encontrá-lo ao vivo. E melhor, escutar o que ele pensa. Ele me fez perceber em uma hora o quanto a vida é simples. Simples só pelo fato da gente parar de complicá-la.

Existe muito rótulo, muita intolerância e gente chata. Gente politicamente correta dá nos nervos. Eu concordo com ele quando diz que a liberdade é que traz a reflexão. Acredito nele porque, de certa forma, eu consigo sentir intensidade nas coisas, assim como ele escreve.

Posso sentir o mesmo ódio e desprezo como ele sente desejo por suas mulheres. Posso sentir o cansaço e a luta de conseguir transpor regras e fazer do seu jeito. Mesmo que pagando o preço por tudo isso.


Em seus livros é possível enxergar o autor tendo a percepção de si mesmo e a explicação de se reconhecer enquanto lê. E não pela mesma vida, moro no Brasil, ele vive em Cuba. Mas conseguir absorver a fórmula, não as palavras.

Ele é tão intenso que te obriga a ser também. E da maneira mais profunda e dolorosa que isso possa ser.

Eu posso odiar, como posso amar. Posso desistir ou lutar por quem ou o que eu quiser.

Mas o que não dá é para parar de tentar entender o que se passa em cada gesto do mundo, das pessoas, dos lugares e de quem os torna vivos, prontos para transformar as suas experiências de cada dia em pequenas histórias de vida.

Ele me ensinou tudo isso. Eu agradeço e assino embaixo!


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Se otimismo é bom, então guarde pra você

Eu não gosto muito de ler autoajuda. Digo com a convicção de quem já leu vários. Por gosto, pra ver se ajudava ou só pra descer goela abaixo mesmo. Mas até aí, tudo bem. 

Se você gosta, é válido pela leitura. Só não queira sair por aí distribuindo amor por todos os lados. Tem dias que eu não quero ser positiva. Quero sentir raiva e preciso de liberdade e espaço pra isso.

Então, não adianta me falar que tenho que ser otimista, que precisamos pensar em coisas boas ou querer ensinar como ter uma vida mais feliz. Isso é coisa de gente que acabou de sair de algum ritual, reunião, grupo de estudo ou seja lá o que for. 

Não recrimino. E nem venha me acusar de bulling. Me poupe disso, por favor. Só não aceito que seja desta forma. Eu aprendi que temos que ser otimistas, positivos e elevar o pensamento.

Mas você, amigo otimista, também deve ter ouvido que encontrar este equilíbrio tem de ser de verdade e convivendo com pessoas que te proporcionem essa vibração. De graça, sem imposição.

Então, quando eu quiser sentir raiva, não me diga o contrário, porque não estará ajudando. Percebe que energia atrai energia?

Faça o seguinte: primeiro equilibre suas energias e, ao invés de me mandar ficar calma, tente acalmar ao seu redor, e mantenha sempre a boca fechada.

Daí, se for o mesmo ar que eu respiro, com certeza o seu silêncio vai me ajudar muito mais do que a sua ordem, que com certeza vai entrar por um ouvido e sair pelo outro, assim, de mansinho. A casa agradece.



sábado, 14 de maio de 2011

Trilogia Nua e Crua

Eu nunca fui à Cuba. Mas era um dos planos do primeiro ano de faculdade. Aquele que se faz com a amiga e que você jura que não vai falhar. Mas falha. 


Não fomos à Cuba, mas adoro ouvir relatos de quem esteve por lá. Pelo motivo que for. De férias, a trabalho ou para um contrabandozinho. Eu sempre gostei de saber dos detalhes daquele lugar, algo a mais do que Fidel e socialismo.


Eis que cai em minhas mãos um livro de Pedro Juan Gutiérrez, presente de um amigo, Trilogia Suja de Havana (Alfaguara, 2008) e que hoje posso confessar uma certa paranóia com ele. Racionalizei as páginas e só lia dez por dia. Por conta daquela sensação ruim de que ele vai acabar.

O autor, Pedro Juan, é um jornalista nascido em Cuba em 1950 e que consegue mostrar Havana da maneira mais crua que se possa imaginar. Exatamente com a mesma verdade e com o mesmo impacto do relato de uma amiga, que saiu do Brasil para comprar charutos. 

Ela, assim como ele, moraram em casas comuns, no centro de Havana e conviveram com toda a realidade que a classe média jamais conseguirá compreender “pois não se pode saber de nada sem enfiar o pé na lama”.

São 348 páginas de vida comum, contada de maneira até agressiva de tanta realidade. Suas experiências na cadeia, o comércio de qualquer coisa que movimenta a cidade – e que faz com que as pessoas não morram de fome – a relação com o sexo, tão intenso quanto sua aversão por mulheres perfumadas. 

Pedro é tão direto que a todo momento você pode sentir o cheiro dos cortiços, o suor do sexo enaltecido por ele e da criação de porcos e galinhas no quintal.

Trilogia Suja de Havana é um relato de vida corajoso, de quem se acostumou a viver no lixo, e que não consegue mais se abalar com isso. 

É um relato de quem nunca desistiu de lutar por uns dólares, de ir para “os states” ganhar a vida, ou simplesmente de correr atrás de um gole de rum.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Ele tá de saia, de bicicletinha...

O mundo todo só fala na morte de Osama bin Laden. Mas eu sinceramente queria que outra coisa morresse. As ideias mirabolantes de nosso prefeito Kassab. Tô pensando até em cancelar a minha assinatura do jornal.

Explico: Ontem, domingão, uma matéria me fez perder a vontade de ler. Kassab, nosso prefeito, teve mais um insight maravilhoso para ajudar a nossa cidade. 

Segundo reportagem da Folha de SP, ele proibiu vagas de estacionamento para os novos prédios da Cohab (conjunto habitacional popular). 

O motivo que ele alega é que encarece a obra. Humm, é mesmo? Nem vou comentar porque esse é só o segundo motivo. O primeiro é que, dessa maneira, ele pode forçar a população a andar de bicicleta. 

Imaginou? Todo mundo atravessando a cidade para trabalhar... de bicicleta? Temperatura ótima pra gente chegar no trabalho limpinho, cheiroso. Várias ciclovias em boas condições. 


Lugares seguros pra gente parar a bicicleta. Borracharias especializadas a cada esquina da cidade. E a vantagem: em dias de chuva não correremos o risco de perder o carro.

Na verdade deve ser realmente uma boa ideia. Assim, os transportes públicos ficam ainda mais lotados e acabam desafogando o trânsito para os mais abastados moradores da cidade. E as pobres montadoras não vão precisar frear as vendas.

Se você faz parte da população de baixa renda, aproveite. Além de comprar a sua casa com menor custo, você será ecologicamente correto. Nunca foi tão elegante ser pobre.Vai dar certinho. E vai acontecer.